O Teatro e
a Cultura
Antonin Artaud
Jamais, quando é a própria vida
que nos foge, se falou tanto em civilização
e em cultura. Há um estranho paralelismo
entre essa destruição generalizada
da vida, que encontra-se na base da desmoralização
atual, e a preocupação com uma
cultura que jamais coincidiu com a vida, e
que é feita para governar sobre a vida.
Antes de retornar à
cultura, observo que o mundo tem fome, e que
ele não se preocupa com a cultura;
e que é apenas de maneira artificial
que se quer dirigir para a cultura pensamentos
que estão voltados unicamente para
a fome.
O mais urgente não
me parece tanto defender uma cultura cuja
existência jamais salvou um homem de
ter fome e da preocupação de
viver melhor, e sim extrair disso que se chama
de cultura idéias cuja força
viva seja idêntica à da fome.
Nós temos necessidade
sobretudo de viver e de acreditar naquilo
que nos faz viver e que alguma coisa nos faz
viver ¤ e aquilo que sai do misterioso
interior de nós mesmos não deve
retornar perpetuamente sobre nós mesmos,
em uma preocupação grosseiramente
digestiva.
Quero dizer que se para todos
nós é importante comer, e já,
nos é ainda mais importante não
desperdiçar nesta única preocupação
imediata de comer nossa simples força
de ter fome.
Se o signo da época
é a confusão, vejo na base dessa
confusão uma ruptura entre as coisas
e as palavras, as idéias, os signos
que são a representação
dessas coisas.
Certamente não são
sistemas de pensamento que nos faltam; o seu
número e as suas contradições
caracterizam nossa velha cultura européia
e francesa: mas quando é que a vida,
a nossa vida, foi afetada por esses sistemas?
Não diria que os sistemas
filosóficos são algo que se
possa aplicar direta e imediatamente; mas
das duas, uma:
Ou esses sistemas estão
em nós e somos impregnados por eles
a ponto de viver deles, e neste caso o que
importam os livros? ou nós não
somos impregnados por eles, e neste caso eles
não merecem nos fazer viver; e de qualquer
forma, que importa seu desaparecimento?
É necessário
insistir sobre esta idéia da cultura
em ação e que se torna em nós
como um novo órgão, uma espécie
de segunda respiração: e a civilização
é a cultura que se impõe e que
rege até mesmo nossas ações
mais sutis, é o espírito que
se encontra nas coisas; e é de maneira
artificial que se separa a civilização
da cultura, e que há duas palavras
para significar uma única e idêntica
ação.
Julgamos um civilizado pelo
modo como ele se comporta, e ele pensa da
maneira como se comporta; mas já sobre
a palavra civilizado existe uma confusão;
para todo o mundo, um civilizado culto é
um homem esclarecido quanto aos sistemas,
e que pensa através de sistemas, de
formas, de signos, de representações.
É um monstro em quem
se desenvolveu até o absurdo essa faculdade
que temos de extrair pensamentos de nossos
atos, em vez de identificar nossos atos com
nossos pensamentos.
Se falta amplitude à
nossa vida, ou seja, se lhe falta uma constante
magia, é porque gostamos de observar
nossos atos e de perder-nos em considerações
sobre as formas sonhadas de nossos atos, em
vez de sermos impelidos por eles.
E essa faculdade é
exclusivamente humana. Diria mesmo que é
essa infecção do humano que
nos estraga certas idéias que deveriam
permanecer divinas; pois, longe de acreditar
no sobrenatural e no divino inventados pelo
homem, creio que foi a intervenção
milenar do homem que acabou por nos corromper
o divino.
Todas as nossas idéias
sobre a vida devem ser modificadas, numa época
em que nada mais adere à vida. E essa
penosa cisão é motivo para que
as coisas se vinguem, e a poesia que não
está mais em nós e que não
conseguimos mais encontrar nas coisas ressurge
de repente pelo lado mau das coisas; e jamais
se viu tantos crimes, cuja gratuita estranheza
só pode ser explicada por nossa impotência
em possuir a vida.
Se o teatro existe para permitir
que nossos recalques tomem vida, uma espécie
de atroz poesia se exprime através
de atos bizarros, onde as alterações
do fato de viver demonstram que a intensidade
da vida permanece intacta, e que bastaria
melhor dirigi-la.
Porém, por mais que
queiramos a magia, no fundo temos medo de
uma vida que se desenvolvesse toda sob o signo
da verdadeira magia.
E é assim que nossa
ausência enraizada de cultura espanta-se
com certas grandiosas anomalias e que, por
exemplo, em uma ilha sem nenhum contato com
a civilização atual, a simples
passagem de um navio, somente com pessoas
sadias, pode provocar o aparecimento de doenças
desconhecidas nessa ilha, e que são
uma especialidade de nossos países:
zona, influenza, gripe, reumatismos, sinusite,
polinevrite, etc., etc.
Do mesmo modo, se achamos
que os negros cheiram mal, ignoramos que para
tudo aquilo que não é Europa
somos nós, os brancos, que cheiramos
mal. E eu diria mesmo que exalamos um odor
branco, branco assim como se pode falar de
um "mal branco".
Como o ferro aquecido ao
branco, pode-se dizer que tudo o que é
excessivo é branco; e para um asiático
a cor branca tornou-se a insígnia da
mais extrema decomposição.
Dito isto, podemos começar a traçar
uma idéia da cultura, uma idéia
que é antes de tudo um protesto.
Protesto contra o estreitamento
insensato que é imposto à idéia
de cultura ao se reduzi-la a uma espécie
de inconcebível Panteão; o que
resulta em uma idolatria da cultura, da mesma
maneira que as religiões idólatras
colocam deuses em seu Panteão.
Protesto contra a idéia
separada que se faz da cultura, como se existisse,
de um lado, a cultura, e de outro a vida;
e como se a verdadeira cultura não
fosse um meio requintado de compreender e
de exercer a vida.
Pode-se queimar a biblioteca
de Alexandria. Acima e além dos papiros,
existem forças: podem nos roubar durante
algum tempo a faculdade de reencontrar essas
forças, mas não podem suprimir
a sua energia. E é bom que muitas das
grandes facilidades desapareçam e que
certas formas caiam no esquecimento; assim
a cultura sem espaço nem tempo contida
em nossa capacidade nervosa ressurgirá
com uma energia amplificada. E é justo
que de tempos em tempos se produzam cataclismas
que nos incitem a retornar à natureza,
ou seja, a reencontrar a vida. O velho totemismo
dos animais, das pedras, dos objetos utilizados
para aterrorizar, das vestimentas bestialmente
impregnadas, em uma palavra tudo o que serve
para captar, dirigir e desviar as forças,
é para nós uma coisa morta,
da qual sabemos apenas tirar um proveito artístico
e estático, um proveito de fruidor
e não um proveito de ator.
Ora, o totemismo é
ator porque se move, e é feito para
atores; e toda verdadeira cultura apoia-se
sobre os meios bárbaros e primitivos
do totemismo, cuja vida selvagem, ou seja,
inteiramente espontânea, quero adorar.
O que nos fez perder a cultura foi nossa idéia
ocidental da arte e o proveito que dela tiramos.
Arte e cultura não podem andar juntas,
contrariamente ao uso que universalmente se
tem feito delas!
A verdadeira cultura age
por sua exaltação e por sua
força, e o ideal europeu da arte visa
lançar o espírito em uma atitude
separada da força e que assiste à
sua exaltação. é uma
idéia preguiçosa, inútil,
e que engendra, a curto prazo, a morte. Se
as múltiplas voltas da Serpente Quetzalcoatl
são harmoniosas, é porque elas
exprimem o equilíbrio e as curvas de
uma força adormecida; e a intensidade
das formas está lá unicamente
para seduzir e captar a mesma força
que, em música, é despertada
por um dilacerante teclado.
Os deuses que dormem nos
Museus: o deus do Fogo, com seu incensório
que recorda o tripé da Inquisição;
Tlaloc, um dos múltiplos deuses das
águas, com sua muralha de granito verde;
a Deusa Mãe das águas, a Deusa
Mãe das Flores; a expressão
imutável e que soa, debaixo de várias
camadas de água, da Deusa com o vestido
de jade verde; a expressão arrebatada
e bem-aventurada, o rosto crepitando de aromas,
onde os átomos de sol dançam
em círculos, da Deusa Mãe das
Flores; essa espécie de servidão
necessária de um mundo onde a pedra
se anima porque foi golpeada da maneira correta,
o mundo dos civilizados orgânicos, aqueles
cujos órgãos vitais também
saem de seu repouso, esse mundo humano penetra
em nós, participa da dança dos
deuses, sem retornar nem olhar para trás,
sob pena de se tornar, como nós mesmos,
pulverizadas estátuas de sal.
No México, uma vez que se trata do
México, não existe arte e as
coisas servem. E o mundo está em perpétua
exaltação.
À nossa idéia
inerte e desinteressada da arte uma cultura
autêntica opõe uma idéia
mágica e violentamente egoísta,
ou seja, interessada. Pois os mexicanos captam
o Manas, as forças que dormem em todas
as formas, e que não podem surgir de
uma contemplação das formas
em si mesmas, mas somente de uma identificação
mágica com essas formas. E os velhos
Tótens estão lá para
acelerar a comunicação.
Quando tudo nos leva a dormir,
olhando com olhos fixos e conscientes, é
duro despertar e olhar as coisas como em um
sonho, com olhos que não sabem mais
para que servem, e cujo olhar está
voltado para dentro.
É assim que nasce
a estranha idéia de uma ação
desinteressada, mas que é ação
de qualquer maneira, e mais violenta por aproximar-se
da tentação de repouso.
Toda verdadeira efígie
tem sua sombra que a duplica; e a arte surge
a partir do momento em que o escultor que
modela crê liberar uma espécie
de sombra cuja existência atormentará
seu repouso.
Como toda cultura mágica
que os hieróglifos apropriados estabelecem,
o verdadeiro teatro também tem suas
sombras; e, de todas as linguagens e de todas
as artes, ele é o único que
ainda possui sombras que romperam com suas
limitações. E podemos dizer
que, desde a sua origem, elas não suportaram
limitações.
Nossa idéia petrificada
do teatro junta-se à nossa idéia
petrificada de uma cultura sem sombras, onde,
para qualquer lado que se volte nosso espírito,
não encontramos senão o vazio,
quando de fato o espaço está
pleno.
Mas o verdadeiro teatro,
porque se move e porque se serve de instrumentos
vivos, continua a agitar as sombras onde a
vida jamais deixou de existir. O ator que
não repete o mesmo gesto duas vezes,
mas que faz gestos, se move, e certamente
brutaliza as formas, mas por trás dessas
formas, e através da sua destruição,
encontra aquilo que sobrevive às formas
e produz a sua continuação.
O teatro que não está
em nada mas que se serve de todas as linguagens:
gestos, sons, palavras, fogo, gritos, encontra-se
exatamente no ponto em que o espírito
tem necessidade de uma linguagem para produzir
suas manifestações.
E a fixação
do teatro em uma linguagem: palavras escritas,
música, luzes, ruídos, indica
sua perdição a curto prazo,
sendo que a escolha de uma linguagem demonstra
o gosto que se tem pelas facilidades dessa
linguagem; e o ressecamento da linguagem acompanha
a sua limitação.
Para o teatro, como para
a cultura, a questão continua sendo
nomear e dirigir as sombras: e o teatro, que
não se fixa na linguagem nem nas formas,
destrói assim as falsas sombras, e
ao mesmo tempo prepara o caminho para um outro
nascimento de sombras, em volta das quais
se incorpora o verdadeiro espetáculo
da vida.
Quebrar a linguagem para
tocar a vida é fazer ou refazer o teatro;
e o importante é não achar que
esse ato deve permanecer sagrado, ou seja,
reservado. O importante é acreditar
que todos podem fazê-lo, e que para
tanto é necessária uma preparação.
Isso leva a rejeitar as limitações
habituais do homem e os poderes do homem,
e a tornar infinitas as fronteiras daquilo
que denomina-se a realidade.
É necessário
acreditar em um sentido da vida renovado pelo
teatro, onde o homem impavidamente torna-se
mestre daquilo que ainda não existe,
e o faz nascer. E tudo aquilo que não
nasceu ainda pode nascer, desde que não
nos contentemos em continuar sendo simples
órgãos registradores.
Da mesma maneira, quando
pronunciamos a palavra vida, é preciso
entender que não se trata da vida reconhecida
a partir do exterior dos fatos, mas dessa
espécie de frágil e fugidio
centro em que as formas não tocam.
E se ainda existe algo de infernal e de verdadeiramente
maldito nestes tempos, é esse demorar-se
artisticamente sobre as formas, em vez de
ser como os supliciados que são incendiados
e fazem sinais de dentro das suas fogueiras.
In Le théâtre
et son double, Paris, éditions Gallimard,
1964, págs. 9-18. Tradução
de Roberto Mallet.
Pesquisa: Emerson
Natividade
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